Em março de 2024, uma enchente devastou Mimoso do Sul, no sul do Espírito Santo: 19 pessoas morreram e mais de 10 mil ficaram desalojadas ou desabrigadas na região. Em fevereiro de 2026, foi a vez da Zona da Mata mineira, onde as chuvas em Juiz de Fora e Ubá deixaram mais de 60 mortos. Em Juiz de Fora, cerca de 130 mil pessoas, quase um quarto da população, vivem em áreas de risco, segundo o Cemaden.
Eventos como esses comprometem infraestruturas e atividades econômicas, mas seus efeitos dependem também das condições de moradia, renda, acesso a serviços e redes de apoio de cada território. Por isso, as mudanças climáticas precisam ser compreendidas também como uma questão social e territorial.
Dos riscos climáticos aos impactos sociais
É importante distinguir risco e impacto. O risco depende da interação entre os perigos, as pessoas e atividades expostas e suas vulnerabilidades. Quando se materializa, produz impactos sociais concretos, como perda de moradia, interrupção da renda ou dificuldade de acesso a serviços. Conhecer o risco permite prevenir e se preparar; lidar com os impactos exige resposta e recuperação. E esses efeitos não são apenas futuros: já fazem parte da realidade dos territórios.
Numa mesma enchente, uma família com moradia segura e reserva financeira pode ter a rotina interrompida por alguns dias, enquanto outra perde a casa e os instrumentos de trabalho. Trabalhadores informais podem ficar sem renda desde o primeiro dia; pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida podem precisar de transporte acessível e apoio para sair de áreas ameaçadas. O mesmo evento exige respostas diferentes, proporcionais aos impactos sofridos por cada grupo.
As desigualdades de gênero ajudam a explicar essas diferenças. Quando escolas e serviços de cuidado deixam de funcionar, mulheres que já concentram o cuidado de crianças, idosos e pessoas doentes podem ter menos tempo para manter atividades remuneradas ou buscar apoio, e meninas podem ter os estudos prejudicados. A ruptura de redes de proteção e a falta de privacidade e segurança em abrigos também podem ampliar a exposição à violência. Considerar essas situações significa prever serviços de cuidado, acesso seguro a informações e apoio, além da participação de mulheres nas decisões sobre preparação e recuperação.
O território como espaço de vulnerabilidades e capacidades
A adaptação às mudanças climáticas costuma ser associada a grandes obras, infraestrutura resiliente, sistemas de monitoramento e tecnologias de previsão. Esses recursos são importantes, mas não esgotam a questão.
A capacidade de um território enfrentar eventos extremos também depende de organização comunitária, confiança entre instituições e população, acesso à informação, redes de solidariedade e preparo das instituições locais.
Em outras palavras, a resiliência de um território também é construída socialmente.
As comunidades não são apenas receptoras de informações ou beneficiárias de ações externas. Elas têm conhecimentos e estratégias próprias para lidar com os riscos, que nem sempre aparecem em diagnósticos exclusivamente técnicos.
Na prática, os diagnósticos precisam combinar mapas de áreas expostas com a escuta de quem vive nelas. Devem considerar os rios, córregos, nascentes e matas do território, suas condições de conservação e sua relação com os riscos. Também devem indicar quem depende de uma única via de acesso, quais famílias têm mais dificuldade para receber alertas, onde estão os serviços de emergência, quais rotas de saída e pontos de encontro são seguros e que capacidades locais existem, como associações, redes de vizinhança e conhecimentos sobre cheias e secas. Essas informações devem orientar a construção participativa de planos de emergência, em articulação com a Defesa Civil.
O que isso muda para a atuação social das empresas?
Empresas com presença permanente ou relações de longo prazo com determinados territórios podem fazer parte da solução.
Isso não significa transferir para as empresas responsabilidades que pertencem ao poder público, nem substituir as organizações comunitárias ou as instituições responsáveis pela gestão de riscos e desastres. Significa reconhecer que elas possuem capacidade de articulação, conhecimento do território, recursos e relações institucionais que podem fortalecer as capacidades locais.
Nos diagnósticos sociais, isso permite cruzar a exposição a eventos extremos com renda, moradia, mobilidade e acesso a serviços, para definir quais grupos podem sofrer perdas mais graves e quais serviços precisam continuar funcionando.
Na comunicação e no relacionamento comunitário, a preparação deve começar antes da emergência. Construir os planos com lideranças locais é importante, mas eles precisam chegar à população como um todo: como reconhecer os alertas, quais procedimentos seguir, quais são as rotas de saída e onde buscar apoio, alcançando também pessoas sem internet ou com barreiras de comunicação. Os programas sociais podem reforçar esse trabalho com ações educativas e exercícios práticos, e iniciativas de geração de renda podem avaliar a dependência de atividades sensíveis à seca ou às inundações.
Internamente, essa perspectiva pode integrar a área social às equipes de meio ambiente, operações e gestão de riscos. Simulados e avaliações após os eventos, com poder público, comunidades e lideranças, permitem aprender com o que funcionou, corrigir o que falhou e ampliar a compreensão de todos sobre o que precisa ser feito diante de uma emergência.
Territórios vulneráveis também representam riscos para os negócios. A interrupção de uma estrada pode impedir a chegada de trabalhadores e fornecedores; a perda de renda de pequenos produtores pode comprometer cadeias locais; a escassez de água pode intensificar disputas pelo seu uso. Mesmo com as instalações intactas, a operação depende das condições de vida e dos serviços do entorno.
Reconhecer essa interdependência permite incorporar a realidade territorial ao planejamento empresarial, sem reduzir a proteção das pessoas a um interesse operacional.
Como incorporar essa perspectiva à atuação que já existe
O ponto de partida pode ser a revisão dos programas já em andamento, com base no mapeamento participativo, para identificar o que eles já consideram e o que ainda precisa ser incorporado.
O acompanhamento deve ir além do número de participantes: os alertas chegaram aos grupos previstos? As pessoas sabem onde buscar apoio? O programa manteve o atendimento durante a interrupção? O que dificultou a retomada das atividades? Essas respostas ajudam a ajustar a atuação e a priorizar investimentos com base em necessidades verificadas.
Uma agenda social para um clima em transformação
Incorporar essa perspectiva à atuação social passa por transformar o conhecimento do território em uma preparação compartilhada, que chegue à população e faça sentido em sua realidade. O que aconteceu em Mimoso do Sul e em Juiz de Fora mostra que essa preparação não pode esperar. A adaptação às mudanças climáticas não acontece apenas nas infraestruturas. Ela também se constrói nas comunidades, nas instituições e nas redes de solidariedade, quando as pessoas sabem como agir e encontram apoio para responder e se recuperar.
Autores: Francisco Bizzotto Gomes é geógrafo e mestre em Desastres Naturais, com atuação em gestão de riscos socioambientais, redução de riscos de desastres, adaptação às mudanças climáticas e fortalecimento de capacidades locais.
Maísa Porto Nacari é Diretora de Gente e Gestão do Instituto Ideias
As opiniões expressas neste conteúdo são de responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, a posição institucional do Instituto Ideias.
