O que são terras raras e por que são estratégicas
As terras raras ganharam papel central na economia global por causa da transição energética e do avanço tecnológico. Apesar do nome, não são necessariamente raras na crosta terrestre. O principal desafio está na concentração da produção e na complexidade de extração e refino.
Elas formam um grupo de 17 elementos químicos, incluindo os lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Esses elementos são essenciais para tecnologias modernas, como motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, chips e sistemas de defesa.
Além disso, são usados principalmente em ímãs de alta performance, baterias e eletrônicos avançados. Esses ímãs são fundamentais para motores mais eficientes e compactos, especialmente em veículos elétricos e equipamentos de energia renovável.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a produção mundial vem crescendo junto com a demanda tecnológica global. Em 2024, a produção global chegou a cerca de 394 mil toneladas.
Produção mundial altamente concentrada

Apesar de existirem reservas em diversos países, a produção de terras raras é extremamente concentrada.
A China domina o setor e responde por aproximadamente 68% a 70% da produção global, o que representa cerca de 270 mil toneladas em 2024. Outros países como Estados Unidos, Austrália e Mianmar aparecem na produção, mas com participação bem menor.
Além disso, o maior desafio não está apenas na mineração, mas principalmente no refino. Essa etapa também é fortemente concentrada, o que amplia a dependência global e cria vulnerabilidades na cadeia de suprimentos. A demanda por terras raras deve continuar crescendo de forma acelerada nas próximas décadas.
De acordo com a Agência Internacional de Energia, os minerais críticos ligados à transição energética podem registrar forte expansão até 2040, impulsionados pela eletrificação da economia.
Isso ocorre porque tecnologias limpas dependem diretamente desses materiais.
Principais aplicações das terras raras
- Veículos elétricos utilizam ímãs de terras raras nos motores
- Turbinas eólicas dependem desses elementos para maior eficiência
- Sistemas de defesa e tecnologia avançada também utilizam esses materiais
Por isso, a disputa global por esses recursos se intensificou nos últimos anos e passou a ter impacto geopolítico direto.
Impactos ambientais da mineração
A mineração de terras raras pode gerar impactos ambientais relevantes. Entre os principais estão a contaminação do solo e da água, o alto consumo de energia e a geração de resíduos químicos.
Em alguns tipos de depósitos minerais, como os associados à monazita, podem ocorrer subprodutos com elementos radioativos, o que exige controle rigoroso e tecnologias adequadas de mitigação.
Além disso, a atividade pode afetar ecossistemas sensíveis, especialmente quando ocorre em áreas de alta biodiversidade.
O papel do Brasil no cenário global
O Brasil possui um dos maiores potenciais de terras raras do mundo, com cerca de 11,4 milhões de toneladas em reservas estimadas, segundo a Agência Nacional de Mineração.
Essas reservas estão distribuídas em estados como Minas Gerais, Goiás e Amazonas.
Apesar do potencial, a produção nacional ainda é limitada. O principal gargalo está na ausência de uma cadeia industrial completa, especialmente nas etapas de separação e refino.
Como resultado, o país ainda exporta parte de sua produção com baixo valor agregado, perdendo oportunidades econômicas relevantes.
Desafios sociais e territoriais
A expansão da mineração de terras raras também traz desafios sociais importantes.
Em muitos casos, esses projetos estão próximos de comunidades tradicionais, o que exige diálogo estruturado e processos de consulta adequados.
Além disso, a chegada de novos empreendimentos pode gerar pressão sobre infraestrutura local, aumento populacional e mudanças na dinâmica econômica dos territórios.
Por outro lado, quando há planejamento e governança adequada, esses projetos podem gerar empregos, renda e desenvolvimento regional.
A importância estratégica das terras raras também elevou as exigências de governança no setor mineral. Investidores e instituições financeiras passaram a exigir mais transparência, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.
Nesse contexto, o setor precisa equilibrar três dimensões principais:
- Segurança energética global
- Desenvolvimento econômico
- Proteção ambiental e social
Segundo o diretor do Instituto Ideias, Vitor Romero, “a discussão sobre terras raras não é apenas sobre mineração ou tecnologia, mas sobre como os países vão estruturar seu futuro energético sem repetir modelos de exploração que geram desigualdade e pressão sobre territórios. O desafio está em construir cadeias mais transparentes, com maior valor agregado local e respeito às comunidades envolvidas”.
Um recurso estratégico para o futuro
As terras raras são hoje fundamentais para a transição energética global. Ao mesmo tempo, representam um ponto de tensão entre desenvolvimento econômico, soberania tecnológica e impactos ambientais.
O desafio não está apenas em ampliar a produção, mas em estruturar cadeias mais sustentáveis, diversificadas e transparentes.
Assim, o futuro desses minerais depende tanto da inovação tecnológica quanto da capacidade de equilibrar interesses econômicos, ambientais e sociais.

