As questões ambientais nunca estiveram tão presentes no cotidiano da sociedade. Eventos climáticos extremos, escassez de recursos naturais, aumento da geração de resíduos e desafios relacionados à sustentabilidade reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre o futuro do planeta e o papel de cada pessoa nessa transformação.

Mais do que uma preocupação ambiental, a crise climática se tornou uma questão social, econômica e humana, afetando diretamente a qualidade de vida das populações e exigindo soluções que envolvam governos, empresas, instituições e comunidades.

Na Semana do Ambiente do Instituto Ideias, para refletir sobre esses desafios e discutir caminhos possíveis para construir um futuro mais sustentável, o Instituto Ideias conversou com Fabiana Ferreira, coordenadora de projetos da instituição. Na entrevista, ela aborda temas como educação ambiental, consumo consciente, mudanças climáticas, responsabilidade coletiva e a importância da participação social na construção de soluções capazes de gerar impacto positivo para as atuais e futuras gerações.

  1. Qual é hoje o maior desafio ambiental que o mundo enfrenta?

Hoje, acredito que o maior desafio ambiental seja encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento econômico, crescimento da população e preservação dos recursos naturais. A gente vive um momento em que as mudanças climáticas estão cada vez mais intensas, e isso acaba trazendo vários impactos ao mesmo tempo, como aumento da poluição, escassez de água, perda da biodiversidade e crescimento na geração de resíduos.

E o mais importante é entender que essa não é apenas uma crise ambiental. Ela também é social, econômica e humana. Os impactos chegam diretamente na vida das pessoas, afetando saúde, alimentação, qualidade de vida e até o acesso a recursos básicos, principalmente para as populações mais vulneráveis.

O grande desafio hoje é justamente conseguir promover desenvolvimento sem comprometer os recursos que as próximas gerações também vão precisar. E isso exige muito mais do que ações pontuais. Precisamos de políticas públicas mais eficientes, investimentos em educação ambiental, planejamento sustentável e, principalmente, uma mudança de mentalidade na forma como a sociedade se relaciona com o meio ambiente.

No fundo, a discussão ambiental não é só sobre natureza. É sobre qualidade de vida, responsabilidade coletiva e sobre o futuro que queremos construir daqui para frente.

  1. Por que ainda é tão difícil transformar consciência ambiental em ação prática?

Apesar de a pauta ambiental estar cada vez mais presente nas discussões do dia a dia, transformar consciência em ação ainda é um grande desafio. Muitas pessoas entendem a importância de preservar o meio ambiente, mas nem sempre conseguem colocar isso em prática, seja por questões culturais, econômicas ou até pela falta de estrutura adequada.

Fabiana Ferreira, coordenadora de projetos socioambientais no Instituto Ideias

Hoje, por exemplo, muita gente quer separar corretamente os resíduos recicláveis, mas em várias cidades ainda faltam coleta seletiva eficiente, pontos de descarte apropriados e campanhas contínuas de orientação ambiental. Então, mesmo existindo consciência, muitas vezes não existe suporte suficiente para que a mudança aconteça de forma prática.

Também existem fatores sociais e econômicos que influenciam bastante esse comportamento. Muitas famílias acabam priorizando necessidades mais imediatas da rotina, e questões ambientais ficam em segundo plano. Além disso, hábitos antigos e a falta de incentivo coletivo dificultam a adoção de práticas mais sustentáveis no cotidiano.

Outro ponto importante é que ainda existe uma tendência de colocar toda a responsabilidade ambiental apenas no indivíduo, quando, na verdade, essa transformação depende de um esforço conjunto. Governo, empresas, instituições e sociedade precisam caminhar juntos, criando políticas públicas eficientes, ampliando a educação ambiental e oferecendo alternativas sustentáveis acessíveis para a população.

 

Sustentabilidade no dia a dia

  1. Que atitudes individuais fazem mais diferença na preservação do meio ambiente?

As atitudes individuais têm um papel muito importante porque os impactos ambientais também são reflexo das escolhas que fazemos no dia a dia. E, muitas vezes, pequenas mudanças de hábito, quando adotadas coletivamente, conseguem gerar transformações muito significativas.

A gente costuma pensar que sustentabilidade está ligada apenas a grandes projetos, mas ela começa justamente nas ações mais simples da rotina. O consumo consciente, por exemplo, faz diferença quando passamos a comprar apenas o necessário, evitar desperdícios e escolher produtos mais duráveis ao invés de descartáveis.

Outras atitudes também têm impacto direto, como economizar água e energia, aproveitar melhor os alimentos e separar corretamente os resíduos para reciclagem. O descarte adequado de materiais como óleo de cozinha, pilhas e eletrônicos também é fundamental para evitar contaminação e outros impactos ambientais.

Além disso, valorizar iniciativas sustentáveis locais é uma forma importante de fortalecer práticas mais responsáveis. Apoiar pequenos produtores, cooperativas de reciclagem, feiras orgânicas e empresas comprometidas com responsabilidade socioambiental ajuda a estimular uma economia mais sustentável e consciente.

Mas é importante lembrar que sustentabilidade vai além das ações dentro de casa. Participar de debates, apoiar projetos socioambientais, compartilhar informação e cobrar políticas públicas eficientes também fazem parte desse processo. A mudança começa no indivíduo, mas ganha força de verdade quando acontece de forma coletiva e contínua.

Colaboradora do Ideias em campo, no Projeto “Jogue Limpo”, uma iniciativa da Vale
  1. O que você considera “sustentabilidade de verdade” hoje?

Sustentabilidade de verdade, hoje, é entender que tudo está conectado. Não dá mais para falar apenas de meio ambiente sem pensar também nas pessoas, na qualidade de vida e na forma como empresas, instituições e a própria sociedade conduzem suas ações. E é justamente essa visão que o ESG traz de uma forma mais prática: equilíbrio entre responsabilidade ambiental, compromisso social e desenvolvimento econômico.

Na prática, isso significa entender que sustentabilidade não pode ser algo feito só para gerar visibilidade ou cumprir protocolo. Ela precisa estar presente nas decisões do dia a dia, na forma de consumir, produzir, descartar resíduos e na maneira como nos relacionamos com as comunidades e com os recursos naturais.

Hoje, falar de sustentabilidade é pensar no impacto das nossas escolhas a longo prazo. Isso envolve desde ações mais simples, como a gestão correta dos resíduos e o consumo consciente, até investimentos em educação, saneamento, inclusão social, inovação e qualidade de vida.

Também acredito que sustentabilidade precisa ser acessível e fazer sentido para a realidade das pessoas. Quando ela fica apenas no discurso ou vira apenas uma tendência de mercado, acaba perdendo seu propósito. Sustentabilidade verdadeira é aquela que gera impacto positivo de forma concreta, melhorando a vida das pessoas, fortalecendo as comunidades e contribuindo para um futuro mais equilibrado para todos.

Crise climática

  1. Como você avalia os impactos das mudanças climáticas no cotidiano das pessoas?

As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante e já fazem parte da realidade das pessoas no dia a dia. Hoje, é cada vez mais comum vermos ondas de calor intensas, períodos de seca prolongada, queimadas, tempestades fortes e enchentes acontecendo com mais frequência e intensidade.

Um exemplo muito claro disso são as enchentes que o Espírito Santo vem enfrentando ao longo dos últimos anos. Diversos municípios sofrem constantemente com fortes chuvas, alagamentos, deslizamentos e impactos na infraestrutura das cidades. E isso acaba afetando diretamente a vida da população, causando prejuízos materiais, problemas de mobilidade, riscos à saúde e até a perda de moradias.

Esses impactos mostram que a crise climática não afeta apenas o meio ambiente, mas também a economia, a segurança alimentar e a qualidade de vida das pessoas. O aumento das temperaturas, por exemplo, influencia na escassez de água, no aumento de problemas respiratórios e até na produtividade agrícola.

E, infelizmente, as populações mais vulneráveis acabam sendo as mais afetadas, justamente porque muitas vezes vivem em áreas de risco ou possuem menos acesso a estrutura e recursos para enfrentar essas situações. Por isso, falar sobre mudanças climáticas também é falar sobre desigualdade social, planejamento urbano, educação ambiental e responsabilidade coletiva.

Hoje, mais do que nunca, precisamos entender que os impactos ambientais já fazem parte da nossa realidade e que enfrentar essa crise exige planejamento, prevenção, conscientização e ações conjuntas entre governo, empresas e sociedade.

  1. Ainda dá tempo de reverter os danos ambientais mais graves?

Alguns impactos ambientais infelizmente já apresentam consequências difíceis de reverter, mas eu acredito que ainda existe tempo para reduzir muitos danos e evitar cenários ainda mais graves no futuro. O grande ponto é que isso depende da rapidez e do comprometimento das decisões que estamos tomando agora.

Hoje já entendemos que não existe uma solução única. É preciso investir mais em energias renováveis, fortalecer políticas ambientais, ampliar práticas sustentáveis e trabalhar a educação ambiental de forma contínua, principalmente para formar uma sociedade mais consciente e participativa.

Também vejo como fundamental o papel das empresas nesse contexto, assumindo responsabilidades reais e não apenas ações pontuais. Inovação, tecnologia e compromisso socioambiental precisam caminhar juntos. E, claro, a população também precisa participar mais das discussões e decisões relacionadas ao meio ambiente.

A crise climática exige urgência, mas também planejamento a longo prazo. Quanto mais demorarmos para agir, maiores serão os impactos ambientais, sociais e econômicos. Ainda existe possibilidade de mudança, mas ela depende de esforço coletivo, responsabilidade compartilhada e de entendermos que cuidar do meio ambiente é cuidar do nosso próprio futuro.

Futuro

  1. Qual deve ser o papel da sociedade para enfrentar a crise ambiental nos próximos anos?

A sociedade terá um papel fundamental no enfrentamento da crise ambiental nos próximos anos. Hoje já ficou claro que sustentabilidade não depende apenas de ações individuais, mas de um esforço conjunto entre governo, empresas, instituições e população. Todo mundo precisa participar desse processo de alguma forma.

Acredito que a educação ambiental será uma das ferramentas mais importantes nessa transformação, principalmente na formação das novas gerações. Quando as pessoas têm acesso à informação e entendem os impactos das suas escolhas, elas passam a desenvolver uma relação mais consciente com o meio ambiente e com a coletividade.

Também, volto a dizer, de como é importante que a sociedade participe mais das discussões sobre políticas públicas, consumo consciente, gestão de resíduos, preservação ambiental e qualidade de vida. As mudanças mais significativas acontecem justamente quando existe mobilização coletiva, engajamento social e compromisso contínuo com transformação.

No fim, enfrentar a crise ambiental não é responsabilidade de um único setor. É uma construção coletiva, que depende de consciência, participação e da disposição de todos para repensar hábitos e construir soluções mais sustentáveis para o futuro.

  1. Que mensagem você deixaria sobre responsabilidade ambiental individual e coletiva?

Acho que a principal mensagem é que ninguém consegue cuidar do meio ambiente sozinho, mas também ninguém pode achar que não tem responsabilidade nesse processo. Às vezes as pessoas acreditam que sustentabilidade está ligada apenas a grandes projetos ou decisões governamentais, quando, na verdade, ela também está nas escolhas que fazemos todos os dias e na forma como convivemos em sociedade.

Ao mesmo tempo, eu acredito que não adianta apenas cobrar mudanças individuais sem oferecer estrutura, informação e oportunidades para que essas mudanças aconteçam de forma real. Sustentabilidade precisa ser algo possível, acessível e conectado com a realidade das pessoas.

E, no fim, falar sobre meio ambiente é falar sobre qualidade de vida. É falar sobre cidades mais preparadas, menos desperdício, mais consciência, mais cuidado com as pessoas e mais responsabilidade com o futuro. A gente precisa parar de enxergar a pauta ambiental como algo distante e entender que ela já faz parte da nossa rotina, das nossas escolhas e dos impactos que estamos vivendo hoje.

 

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