Cuidar das pessoas também é ESG: o que as empresas estão fazendo de verdade?
Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada como um tema privado, restrito ao indivíduo. No ambiente corporativo, falar de emoções, sofrimento psíquico ou esgotamento era visto como fraqueza. Esse cenário começa a mudar, impulsionado tanto pelo aumento dos casos de ansiedade e burnout quanto pela consolidação do ESG, que colocou o cuidado com as pessoas no centro da estratégia empresarial.
No entanto, a pergunta que permanece é incômoda e necessária: quando as empresas falam de saúde mental, estamos diante de um compromisso real ou apenas de um discurso bem alinhado ao marketing?
Saúde mental como parte do “S” do ESG
O pilar social do ESG envolve condições de trabalho dignas, diversidade, equidade, inclusão e bem-estar. Nesse contexto, a saúde mental deixa de ser um benefício opcional e passa a ser um indicador de sustentabilidade organizacional.
Empresas que ignoram o tema enfrentam consequências concretas, como queda de produtividade, aumento do absenteísmo, afastamentos por questões psicológicas e alta rotatividade. Por outro lado, organizações que investem em ambientes mais saudáveis constroem relações de confiança e fortalecem sua reputação.
Para a diretora executiva do Ideias, Luana Romero, esse debate precisa sair do campo simbólico e ganhar materialidade. “Não é possível falar em sustentabilidade sem falar de pessoas. Saúde mental não pode ser tratada como campanha pontual ou discurso bonito. Ela precisa estar integrada à cultura, às decisões e à forma como o trabalho é organizado”, afirma.
Políticas internas: do papel à prática
Nos últimos anos, cresceu o número de empresas que anunciam programas de apoio psicológico, canais de escuta ou parcerias com plataformas de terapia. Essas iniciativas são importantes, mas insuficientes quando não vêm acompanhadas de mudanças estruturais.
Metas inalcançáveis, jornadas extensas, pressão constante por resultados e lideranças despreparadas continuam sendo fatores centrais de adoecimento. Sem enfrentar essas causas, qualquer política de saúde mental corre o risco de se tornar paliativa.
A coerência entre discurso e prática passa por revisar processos, promover equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, respeitar limites e garantir segurança psicológica no dia a dia das equipes.
A forma como líderes se relacionam com suas equipes tem impacto direto na saúde mental. Lideranças empáticas, que escutam, acolhem e sabem lidar com conflitos, reduzem riscos psicossociais e fortalecem o engajamento.
Mais do que uma habilidade individual, a empatia precisa ser reconhecida como competência estratégica. Isso envolve capacitação contínua, critérios claros de avaliação e responsabilidade da alta gestão.
Segundo Luana Romero, esse é um ponto-chave da governança. “Quando a liderança não está preparada para lidar com pessoas, o custo aparece em silêncio, afastamentos e sofrimento. Governança também é cuidar de quem sustenta a organização todos os dias”, destaca.
Indicadores de bem-estar: o que pode ser medido importa
Uma das principais críticas às práticas de ESG ligadas à saúde mental é a falta de indicadores claros. Enquanto emissões de carbono e consumo de recursos são amplamente monitorados, o bem-estar ainda é tratado de forma subjetiva.
Medir clima organizacional, engajamento, rotatividade, afastamentos por motivos psicológicos e resultados de pesquisas internas é fundamental para transformar cuidado em política concreta. O que não é acompanhado dificilmente é priorizado.
Empresas que levam o tema a sério utilizam esses dados para ajustar estratégias, prevenir riscos e prestar contas de forma transparente.
Muito além do Janeiro Branco
Janeiro Branco é um convite à reflexão, mas a saúde mental no trabalho precisa ser pauta permanente. Em um mundo marcado por crises climáticas, instabilidade econômica e rápidas transformações, o cuidado com as pessoas se torna ainda mais urgente.
ESG e saúde mental não podem caminhar separados. Quando o discurso não se traduz em prática, quem paga o preço são os trabalhadores e, no longo prazo, a própria sustentabilidade dos negócios.

Segundo Luana Romero, esse é um ponto-chave da governança. “Quando a liderança não está preparada para lidar com pessoas, o custo aparece em silêncio, afastamentos e sofrimento. Governança também é cuidar de quem sustenta a organização todos os dias”, destaca.