Por Evelyn Bonifácio
Caminhar por um território em trabalho de campo é, antes de tudo, atravessar histórias que não aparecem nos mapas, é perceber que cada estrada, cada moradia, cada silêncio e cada narrativa revelam dimensões profundas da produção da vida social. E na atual experiência em contexto socioambiental, essa constatação voltou a se impor com força: o território não é apenas espaço físico, mas um tecido vivo de relações, memórias, disputas e formas de existência. E é nesse tecido que se inscrevem tanto as vulnerabilidades quanto as possibilidades de proteção social.
A pergunta que tem atravessado minha prática é: como atuar em territórios complexos sem reduzir pessoas a dados e espaços a coordenadas?

Figura 1 – Registro da visita de campo em ação socioambiental territorial
Fonte: Acervo da autora (2026).
Nota: Visita técnica realizada pelos profissionais Evelyn Bonifácio e Julielson Fagundes.
Entre a análise social e a responsabilidade territorial
A atuação como analista social em contextos territoriais é marcada por um permanente exercício de mediação entre escalas institucionais e experiências locais, entre instrumentos técnicos e histórias de vida, entre demandas operacionais e princípios éticos. Esse lugar profissional exige uma postura interdisciplinar, mas sobretudo uma postura sensível e reflexiva diante das múltiplas camadas que compõem os territórios. Não se trata apenas de executar atividades, mas de compreender processos sociais em movimento, reconhecer dinâmicas de desigualdade e construir relações pautadas pelo respeito e pela escuta.
A ética profissional, nesse cenário, não é um protocolo, é um posicionamento, e pensar território em uma perspectiva crítico-social significa romper com a ideia de espaço neutro. Territórios são produzidos por relações de poder, atravessados por desigualdades e configurados por disputas materiais e simbólicas. São espaços que articulam: formas de trabalho e subsistência, acesso (ou não acesso) a políticas públicas, redes de cuidado e sociabilidade, estratégias de sobrevivência, processos de deslocamento e reconfiguração dos meios de vida
Nesse sentido, território é simultaneamente lugar de reprodução da vida e lugar de produção da desigualdade. É onde a questão social se manifesta concretamente e onde as políticas públicas buscam (nem sempre com sucesso) produzir respostas. Trabalhar em territórios exige, portanto, uma leitura que ultrapasse o visível. Exige compreender que vulnerabilidades não são atributos individuais, mas expressões de processos históricos e estruturais que se materializam no espaço.

Figura 2 – Registro da visita de campo em ação socioambiental territorial
Fonte: Acervo da autora (2026).
Nota: Visita técnica realizada pelos profissionais Evelyn Bonifácio e Julielson Fagundes.
Sendo assim, no campo, as ferramentas se traduzem em gestos concretos: a forma de abordar, de ouvir, de registrar, de interpretar e de dialogar. Cada encontro territorial passa a ser compreendido não apenas como coleta de informação, mas como espaço de reconhecimento, vínculo e produção de sentido.
O trabalho territorial envolve então múltiplos instrumentos, diagnósticos, registros, cadastros, observações, e é na articulação entre esses instrumentos e a experiência vivida que se produz uma compreensão mais profunda das dinâmicas sociais.
O campo ensina a ver nuances que não aparecem nos formulários:
- hesitações nas narrativas
- memórias que emergem de forma fragmentada
- redes de apoio invisibilizadas
- estratégias de sobrevivência silenciosas
- sentidos atribuídos ao território pelos próprios sujeitos
Essa dimensão qualitativa é central para evitar a redução da complexidade territorial a indicadores descontextualizados. Os territórios não são apenas espaços de intervenção, são espaços de cuidado, de resistência e de possibilidade. São lugares onde a vida se reinventa diariamente, mesmo diante de desigualdades estruturais.
Atuar em territórios exige reconhecer essa complexidade e assumir um compromisso ético com práticas que respeitem pessoas, histórias e modos de vida. Exige compreender que cada intervenção territorial carrega potencial de produzir tanto vulnerabilidades quanto proteção.
Que possamos seguir construindo práticas territoriais que articulem conhecimento, ética e compromisso social, reconhecendo que a transformação dos territórios passa, inevitavelmente, pela valorização das pessoas que os habitam.
