Fenômeno pode provocar perdas no campo, dificuldades no transporte, secas, enchentes e incêndios em diferentes regiões do Brasil
O preço do café, das frutas, das verduras e até das carnes pode ser afetado por um fenômeno que começa do outro lado do planeta. O El Niño, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, altera as chuvas e as temperaturas e pode causar uma sequência de impactos até chegar ao bolso dos brasileiros.
É o que pode acontecer nos próximos meses. O El Niño já está configurado e deve permanecer pelo menos até o início de 2027. Os modelos analisados por órgãos brasileiros indicam alta probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão.
Embora seja chamado popularmente de “Super El Niño”, o termo utilizado pelos órgãos meteorológicos é “El Niño muito forte”. Quanto maior sua intensidade, maior a possibilidade de ocorrerem secas prolongadas no Norte e no Nordeste, chuvas intensas no Sul, ondas de calor e incêndios florestais.
“Quando o clima muda, não é apenas a previsão do tempo que muda. Mudam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, a produção no campo e até a rotina das cidades”, explica Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias.
Por que a comida pode ficar mais cara?
A primeira parte dessa conta começa no campo. A falta ou o excesso de chuva pode reduzir a produção, prejudicar a qualidade dos alimentos e aumentar os gastos dos agricultores com irrigação, controle de doenças e recuperação das lavouras.
No Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, a redução das chuvas pode afetar culturas que dependem da água disponível no solo. No Sul, o problema pode ser o oposto: chuva demais, solo encharcado, lavouras afetadas e dificuldade para plantar ou colher.
Produtos como frutas, verduras e legumes costumam sentir os efeitos mais rapidamente. Mas os reflexos podem prejudicar a produção de grãos, leite, carnes e outros itens. Se milho e soja ficam mais caros, por exemplo, aumenta também o custo da ração utilizada na criação de aves, suínos e bovinos.
Algumas projeções divulgadas por instituições financeiras trabalham com cenários de aumento entre 15% e 20% nos preços dos alimentos mais afetados. Isso não significa que toda a alimentação subirá nessa proporção, mas mostra o tamanho do risco caso o fenômeno provoque perdas importantes na produção.
“Os alimentos percorrem um longo caminho antes de chegar à nossa mesa. Se a lavoura produz menos, se uma estrada é interrompida pela chuva ou se um rio deixa de ser navegável por causa da seca, toda essa cadeia fica mais cara”, observa Luana.
Um peso maior para quem ganha menos
O aumento dos alimentos não atinge todas as famílias da mesma maneira. Para quem possui renda mais baixa, a alimentação ocupa uma parte maior do orçamento. Quando o supermercado fica mais caro, sobra menos dinheiro para transporte, aluguel, energia, medicamentos e outras despesas essenciais.
“Uma família com mais recursos consegue absorver parte da alta ou substituir produtos. Para quem já vive com o orçamento apertado, qualquer aumento pode comprometer o acesso a uma alimentação adequada e pesar ainda mais nas demais despesas essenciais”, alerta a presidente do Instituto Ideias.
A pressão sobre os alimentos também pode dificultar o controle da inflação. Em agosto, o Banco Central informou que as expectativas para a inflação de 2026 permaneciam acima da meta. O El Niño não é o único fator que influencia os preços, mas pode agravar um cenário que já exige atenção.
Os efeitos nas cidades e na saúde

Os impactos não param no supermercado. A falta de chuva pode reduzir o nível dos rios e reservatórios, comprometer o abastecimento de água, prejudicar a geração de energia e aumentar o risco de incêndios em áreas de vegetação.
Além dos danos ambientais, a fumaça das queimadas piora a qualidade do ar e pode agravar problemas respiratórios, principalmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
No Sul, chuvas fortes podem provocar inundações, enxurradas e deslizamentos. E períodos de seca não impedem que uma região enfrente temporais. Quando a chuva cai de forma muito intensa em poucas horas, cidades com drenagem insuficiente, ocupações em áreas de risco e pouca vegetação ficam mais vulneráveis.
O que pode ser feito?
A especialista destaca que governos, empresas e cidadãos têm um papel importante na redução dos impactos. “O poder público precisa monitorar rios e reservatórios, fortalecer a Defesa Civil, apoiar os produtores e adotar medidas de prevenção contra incêndios, enchentes e deslizamentos. Empresas e cidadãos também podem contribuir, economizando água, descartando corretamente os resíduos e evitando práticas que possam provocar queimadas”, reforça Luana Romero.
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Instituto Ideias – Com atuação em todo o Brasil, a organização se dedica ao desenvolvimento sustentável, auxiliando empresas a elevarem seus padrões Ambientais, Sociais e de Governança (ESG).
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