Por Evelyn Bonifácio
Em territórios impactados por grandes empreendimentos, sejam eles industriais, florestais, energéticos, logísticos ou de infraestrutura, possui uma agenda socioambiental que tem avançado de forma significativa nos últimos anos. Temas como mitigação de impactos, relacionamento comunitário, geração de renda, conservação ambiental, transição energética e desenvolvimento local já fazem parte das estratégias de sustentabilidade de muitas organizações.
No entanto, há uma dimensão que precisa ganhar ainda mais centralidade nas agendas ESG: a relação entre território, educação, leitura e inclusão.
Quando uma empresa se instala, expande sua operação ou desenvolve atividades em determinado território, ela não se relaciona apenas com recursos naturais, cadeias produtivas ou indicadores econômicos. Ela passa a compor a vida cotidiana de comunidades, famílias, escolas, crianças, adolescentes e profissionais que atuam na linha de frente das políticas públicas.
Nesse sentido, pensar sustentabilidade exige uma pergunta ampliada:
Como as políticas de educação, leitura e inclusão chegam às famílias e crianças que vivem nos territórios impactados por grandes empreendimentos?
Essa pergunta é especialmente importante quando falamos de crianças e estudantes neurodivergentes, pessoas com deficiência, estudantes com transtornos de aprendizagem ou com outras necessidades educacionais específicas.
O território como condição concreta de aprendizagem
Território não é apenas localização geográfica. É uma combinação de condições sociais, ambientais, culturais, econômicas e institucionais, como:
O acesso à água;
A estrada que leva à escola;
O transporte escolar;
A existência ou ausência de biblioteca;
A presença de uma sala de recursos multifuncionais;
A formação dos profissionais da educação;
A forma como a comunidade participa das decisões;
A maneira como a criança se reconhece, ou não, nos materiais didáticos, nas práticas pedagógicas e nos projetos sociais que chegam até ela;
Por isso, a educação não pode ser compreendida de forma isolada. Ela está diretamente conectada às condições de vida do território.
Dados recentes ajudam a dimensionar esse desafio. No Brasil, relatório do Instituto Água e Saneamento e do CEDRA aponta que um em cada três estudantes está em escolas sem algum serviço de saneamento, como água, esgoto ou coleta de lixo. Esse dado revela que a infraestrutura socioambiental também é uma infraestrutura educacional, porque impacta diretamente a permanência, a saúde e as condições de aprendizagem dos estudantes.
Leitura e inclusão: indicadores essenciais para o desenvolvimento social
A leitura é um dos principais marcadores de cidadania. Ela interfere na trajetória escolar, na autonomia, na participação social, no acesso ao trabalho e na capacidade de compreender direitos.
Quando olhamos para territórios marcados por vulnerabilidades históricas, desigualdades raciais, fragilidade de infraestrutura e baixa escolaridade, a leitura precisa ser tratada como um indicador estratégico de desenvolvimento.
Na Bahia, a taxa de analfabetismo caiu de 10,2% em 2023 para 9,7% em 2024, segundo a PNAD Contínua Educação/IBGE. Apesar da redução e do menor patamar da série histórica para o estado, o indicador ainda revela desigualdades territoriais importantes: a taxa baiana segue acima da média nacional, de 5,3%, e muito distante de unidades federativas como Distrito Federal, Santa Catarina e Rio de Janeiro, que registraram índices próximos de 2%.

Esse dado não deve ser lido apenas como uma estatística educacional. Ele aponta para uma questão territorial: onde a leitura não chega plenamente, a cidadania também chega de forma incompleta.
Para estudantes neurodivergentes, esse desafio pode ser ainda maior. A ausência de materiais acessíveis, metodologias adequadas, formação continuada, tecnologias assistivas e acompanhamento especializado pode transformar a escola em um espaço formalmente inclusivo, mas concretamente excludente.
A inclusão, portanto, não se resume à presença do estudante na escola. Ela exige condições reais de participação, aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento.
Diante disso, o desafio que se coloca para empresas, poder público, organizações socioambientais e instituições de ensino é construir uma agenda ESG que não trate a educação apenas como ação complementar, mas como eixo estratégico de desenvolvimento territorial.
Se a leitura, a acessibilidade e a inclusão são condições para a cidadania, elas também precisam ser incorporadas aos diagnósticos sociais, aos planos de mitigação, aos projetos comunitários e aos indicadores de impacto. Que tal ampliarmos essa conversa? Nos territórios impactados por grandes empreendimentos, a pergunta que precisa orientar nossas ações é: as crianças estão apenas sendo vistas nos mapas e relatórios, ou estão sendo efetivamente consideradas na construção do futuro desses territórios?
